Criminosos criam marketplace de dados pessoais para aplicar golpes na internet

Criminosos criam marketplace de dados pessoais para aplicar golpes na internet

Interfaces incluem informações cadastrais, histórico financeiro, vínculos familiares e outros registros. A ausência de controle sobre finalidade de uso e privacidade amplia o potencial de exploração dessas informações

Análises conduzidas pela Apura Cyber Intelligence indicaram que o mercado ilegal de dados pessoais representa um ponto central no ecossistema das fraudes digitais no Brasil. Vazamentos de dados, cada vez mais frequentes, são organizados em plataformas estruturadas de consulta online, facilitando o acesso às nossas informações pessoais muito além dos fóruns clandestinos.

“Essas plataformas funcionam como sistemas de busca alimentados por bases de dados obtidas em diferentes incidentes de segurança ao longo dos últimos anos, além de acesso não autorizado a APIs de diferentes organizações. Informações provenientes de sistemas administrativos, cadastros financeiros e bancos de dados públicos e privados passam a ser consolidadas em interfaces que permitem a consulta rápida de perfis completos de cidadãos”, explica Sandro Süffert, CEO da Apura. 

A investigação conduzida pela empresa identificou que o problema não está apenas em novos vazamentos. Parte das informações exploradas por fraudadores é composta por bases antigas que continuam circulando e sendo reutilizadas. Dados históricos de diferentes sistemas permanecem disponíveis em redes clandestinas e são incorporados a novas plataformas de consulta.

O executivo explica que esses painéis funcionam como agregadores de informação. A partir de um CPF ou número de telefone, é possível reunir dados cadastrais, histórico financeiro, registros de documentos e outras informações que permitem validar a identidade de uma pessoa em poucos segundos.

“Não estamos lidando apenas com o roubo de dados, mas com a sua industrialização. Esses painéis reduzem drasticamente o esforço do golpista. O que antes levava dias de pesquisa agora é entregue em segundos”, explica o CEO.

O funcionamento dessas estruturas depende de diferentes falhas técnicas. Entre elas, estão repositórios de código expostos em plataformas de desenvolvimento, nos quais credenciais e chaves de acesso à bancos de dados corporativos acabam sendo publicadas inadvertidamente. Outro vetor recorrente é o uso de registros capturados por malwares do tipo stealer, que coletam credenciais armazenadas em computadores e celulares infectados.

Essas credenciais permitem o acesso a sistemas corporativos e serviços internos. Quando combinadas com diretórios públicos e serviços configurados de forma inadequada, tornam possível a extração contínua de dados e a criação de novas bases clandestinas.

“Serviços mal configurados e diretórios expostos para a Internet permitem que criminosos não apenas acessem dados, mas também construam suas próprias camadas de consulta”, diz Sandro Süffert. “Ferramentas de anonimização e redes de proxy ajudam a mascarar a origem das requisições e a manter esses serviços ativos”.

Ao longo de 2025, os analistas da Apura também identificaram um novo modelo de operação: parte dos grupos passou a oferecer acesso a essas bases por meio de APIs, interfaces normalmente utilizadas para integração entre sistemas. Nesse modelo, o acesso aos dados é vendido em marketplaces digitais que simulam ambientes voltados ao desenvolvimento de software.

A estrutura reduz a complexidade técnica da fraude e dá agilidade aos criminosos. Em vez de realizar buscas manuais, o fraudador passa a integrar a API a scripts automatizados, capazes de consultar dados em grande escala e alimentar diferentes tipos de golpes digitais.

As combinações de dados disponíveis nessas interfaces incluem informações cadastrais, histórico financeiro, vínculos familiares e outros registros correlacionados a partir de diferentes bases. A ausência de controle sobre a finalidade de uso e a privacidade amplia o potencial de exploração dessas informações.

Segundo o executivo, a investigação iniciada em 2025 deve ser concluída em 2026, com um estudo sobre a arquitetura técnica dessas redes. A análise indica que o enfrentamento do problema exige medidas que ultrapassem a remoção pontual de sites clandestinos.

A mitigação dessa ameaça à privacidade dos brasileiros envolve uma postura pró-ativa por parte das organizações, tanto na proteção de dados quanto na proteção de sua infraestrutura tecnológica. As empresas e órgãos públicos devem investir  no monitoramento da exposição de seus servidores e aplicações, na revisão de controles de acesso e identificação preventiva de vazamentos de credenciais e código fonte. A discussão também inclui a responsabilização de intermediários envolvidos no tratamento dessas informações.

“Se não atacarmos a infraestrutura que permite a reutilização desses dados, estaremos apenas reagindo aos sintomas. A fraude digital hoje opera como um sistema estruturado, com logística, ferramentas e escala”, conclui Sandro Süffert.

 

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