
O Brasil deverá investir R$ 126,9 bilhões em cibersegurança entre 2026 e 2029, segundo projeções reunidas pela Brasscom no Relatório de Cibersegurança 2026. O avanço financeiro, porém, convive com o crescimento de ataques a aplicações web, fraudes digitais e lacunas de governança de inteligência artificial.
Elaborado pela Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), com apoio da Abraseci e do programa Hackers do Bem, o relatório integra dados de fontes como IDC, CERT.br, IBM, NCSI, INEP e RAIS. Seu objetivo é apresentar a trajetória brasileira de maturidade cibernética, relacionando investimentos, ameaças, talentos, IA e impactos econômicos. Destina-se especialmente a dirigentes empresariais, gestores de TI e segurança, especialistas em governança e políticas públicas. Não se trata de uma pesquisa de campo única: são consolidados indicadores de diferentes metodologias e datas, incluindo séries de 2019 a 2025, informações de 2026 e projeções até 2029.
Investimento cresce, mas a exposição continua
O investimento anual passou de R$ 13,4 bilhões em 2023 para R$ 22,2 bilhões em 2025. Para 2026, a projeção é de R$ 25,6 bilhões, chegando a R$ 38,2 bilhões em 2029. O relatório estima que a segurança absorva 6,4% do orçamento brasileiro de TI, abaixo da faixa internacional de referência de 8% a 12%. Essa faixa não deve ser tratada como meta universal: o gasto apropriado depende dos riscos e da criticidade de cada negócio.
R$ 13,4 bi
2023
R$ 17,8 bi
2024
R$ 22,2 bi
2025
R$ 25,6 bi
2026
R$ 29,6 bi
2027
R$ 33,5 bi
2028
R$ 38,2 bi
2029
O Brasil elevou sua pontuação no National Cyber Security Index de 50,65 em 2023 para 71,67 em 2025, mas permaneceu em posição próxima no ranking, do 54º para o 55º lugar. O índice não deve ser confundido com o Global Cybersecurity Index, que utiliza metodologia diferente.
Aplicações web e engenharia social exigem atenção
Os registros de incidentes em aplicações web recebidos pelo CERT.br passaram de 7.937 em 2024 para 19.965 em 2025. As notificações de invasão cresceram de 527 em 2019 para 3.729 em 2025. Esses números representam notificações voluntárias, sujeitas a subnotificação, e não a totalidade dos ataques no país.
Aplicações web — incidentes notificados
O estudo também reúne dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026: foram 346,8 mil ocorrências de estelionato eletrônico em 2025, alta de 21,1% em relação a 2024. O Nordeste registrou crescimento de 87,6%, enquanto o Sul liderou em volume, com 102,8 mil ocorrências. O cenário reforça a necessidade de controles de identidade, proteção de transações e treinamento contra engenharia social.
Governança de IA e qualificação são decisivas
Na consolidação de estudos da IBM, a Brasscom aponta que 87% das organizações brasileiras do recorte analisado não possuem política formal de governança de IA. O relatório associa o uso amplo de IA e automação na segurança a um custo médio de violação de R$ 6,5 milhões no Brasil, comparado com R$ 8,8 milhões entre organizações sem uso da tecnologia. A diferença observada é de aproximadamente 26%; não demonstra, isoladamente, uma relação causal.
A força de trabalho também apresenta desafios. O relatório identifica 8.944 empregos em 2025 em duas ocupações específicas da Classificação Brasileira de Ocupações, com crescimento médio anual de 18,6% entre 2019 e 2025. O indicador não abrange todas as funções de cibersegurança e, portanto, não deve ser interpretado como total nacional de especialistas.
O que muda na estratégia das empresas
A leitura conjunta dos indicadores recomenda que empresas deixem de avaliar segurança apenas pelo número de ferramentas adquiridas. Inventário de ativos, proteção de identidades, autenticação resistente a phishing, segurança de aplicações e APIs, gestão contínua de vulnerabilidades, supervisão de ferramentas de IA, detecção de ameaças e testes de recuperação devem compor um programa de proteção orientado ao risco. Para os executivos, o retorno precisa ser medido pela capacidade de evitar interrupções, conter incidentes e preservar dados e operações.
O crescimento do mercado brasileiro representa uma oportunidade de amadurecimento, mas a resiliência dependerá de combinar investimento, governança, profissionais qualificados e capacidade operacional. Gastar mais não é, por si só, garantia de estar mais protegido.
Referências e créditos
- Fonte principal: Brasscom — Relatório de Cibersegurança 2026, páginas 6, 7, 9, 10, 16, 24 e 29. Site institucional: brasscom.org.br.
- Fontes primárias indicadas pelo relatório: IDC Black Book Live Edition 2025V4; CERT.br; NCSI; IBM Cost of a Data Breach Report 2025 (global e Brasil); Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026; RAIS/CAGED.
- Nota de atribuição: Reportagem e gráficos editoriais originais do Blog Minuto da Segurança, baseados em indicadores publicados pela Brasscom. Os gráficos foram redesenhados; não são reproduções dos gráficos da apresentação. A Brasscom não participou da redação e não endossa esta análise.
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