Quando a pressa vira risco

Quando a pressa vira risco: fraudes digitais exploram decisões automáticas

Especialistas apontam que golpes não crescem por eventos isolados, mas por contextos de emoção e pressa, e defendem que consumidores pratiquem “verificação inteligente” no dia a dia

Golpes digitais não se intensificam apenas por causa de datas festivas ou grandes eventos. Eles avançam quando as pessoas estão com pressa, distraídas ou emocionalmente envolvidas, exatamente o tipo de estado mental comum em períodos de alta circulação, viagens e celebrações.

É por isso que momentos como o Carnaval, grandes shows ou deslocamentos em massa acabam funcionando como amplificadores de risco no ambiente digital. Não pelo volume de acessos em si, mas porque concentram muitas decisões rápidas, feitas fora do padrão habitual.

Nesse ambiente, criminosos exploram menos a tecnologia em si e mais o comportamento humano. Mensagens fora de contexto, pedidos urgentes ou ofertas que exigem resposta imediata tendem a funcionar justamente porque reduzem o tempo de reflexão. É o mesmo princípio que orienta muitas estratégias de engenharia social: criar um cenário em que a vítima aja antes de questionar.

Dados do Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Econômico Mundial, mostram que 73% dos entrevistados afirmaram que eles ou alguém de sua rede foi afetado por fraudes digitais ao longo de 2025, um indicativo de que o problema passou a fazer parte do cotidiano das interações digitais.

Enquanto empresas investem em estruturas cada vez mais sofisticadas para identificar desvios de comportamento em tempo real, o cidadão também pode, e precisa, participar desse ecossistema de proteção. Não com ferramentas técnicas, mas aplicando a mesma lógica das defesas corporativas: observar sinais, questionar situações fora do padrão e resistir à pressão do imediato. É isso que especialistas chamam de verificação inteligente aplicada ao dia a dia.

O raciocínio é simples. Assim como sistemas antifraude analisam contexto antes de autorizar uma transação, pessoas podem reconhecer seus próprios “desvios de padrão”. Um link inesperado, uma cobrança que foge do habitual ou um pedido de pagamento urgente são sinais claros de que algo merece verificação adicional. Em vez de reagir, a recomendação é pausar.

Segundo Marcelo Sousa, VP de Produto da Certta, hub de verificação inteligente, a sofisticação recente do crime digital tornou esse cuidado ainda mais necessário. “Os fraudadores passaram a usar tecnologias avançadas para criar narrativas cada vez mais convincentes e menos previsíveis. Isso enfraquece modelos baseados apenas em regras fixas e exige uma leitura mais contextual de cada interação”, afirma.

Essa avaliação aparece também em uma publicação recente da MIT Technology Review Brasil, que reuniu especialistas de diferentes setores para analisar como o mercado vem reorganizando suas estratégias de proteção. A conclusão é que o risco deixou de estar apenas no aumento de acessos e passou a se concentrar nas variações súbitas de comportamento e na velocidade com que elas se propagam.

Do ponto de vista do usuário final, entender esse mecanismo passa também pela forma como o cérebro toma decisões sob pressão. A especialista em cultura de segurança Juliana Silveira D’Addio lembra que, em situações de cansaço, excesso de estímulos ou emoção, as pessoas tendem a agir no chamado “modo automático”. “Atacar pessoas, muitas vezes, é mais eficiente do que atacar sistemas”, explica.

O conceito foi descrito pelo psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman ao diferenciar dois modos de pensamento: um rápido e intuitivo, outro mais lento e analítico. Golpes bem-sucedidos costumam explorar o primeiro, usando urgência, escassez e medo para acelerar decisões. Frases como “última chance”, “problema na conta” ou “confirmação imediata” não são aleatórias, elas são desenhadas para impedir a reflexão.

Por isso, a defesa comportamental se torna tão importante. “Pare. Pense. Confirme”, resume Juliana. Qualquer pedido inesperado de pagamento, compartilhamento de senha ou clique em link deve ser validado em um canal confiável antes de qualquer ação. Muitas vezes, essa pausa é suficiente para interromper o golpe.

Outros cuidados seguem a mesma lógica. Desconfie de ofertas muito abaixo do valor de mercado. Verifique se o endereço do site corresponde ao da empresa oficial. Em compras presenciais, confirme se o cartão foi corretamente devolvido após o pagamento. Em grandes eventos ou deslocamentos, vale reforçar a proteção do smartphone, hoje um dos principais alvos dos criminosos. Aplicativos como o Celular Seguro BR, do Governo Federal, ajudam a bloquear o aparelho rapidamente em caso de perda ou roubo.

Em um ambiente digital cada vez mais rápido e imprevisível, proteger-se não significa desconfiar de tudo, mas aprender quando é hora de verificar melhor. Essa capacidade de leitura do contexto, seja por sistemas, seja por pessoas, é o que sustenta a confiança nas relações digitais do cotidiano.

 

Clique e fale com representante oficial Netwrix

 

Veja também:

About mindsecblog 3428 Articles
Blog patrocinado por MindSec Segurança e Tecnologia da Informação Ltda.

Be the first to comment

Deixe sua opinião!