Saúde sob ataque: por que o risco cibernético no Brasil já pode colocar pacientes, hospitais e o SUS em perigo

Cibersegurança hospitalar, ransomware e sistemas de saúde conectados

Hospitais, clínicas e redes públicas de saúde dependem cada vez mais de prontuários eletrônicos, sistemas de diagnóstico, equipamentos conectados, aplicações em nuvem e integrações digitais. Essa transformação amplia a eficiência da assistência, mas também cria uma consequência que não pode mais ser tratada apenas como problema de TI: um incidente cibernético pode afetar dados, interromper serviços e, em situações críticas, atingir diretamente a segurança do paciente.

A transformação digital da saúde brasileira está criando uma das infraestruturas de informação mais relevantes do país. Consultas, exames laboratoriais, imagens médicas, prescrições, internações, autorizações, diagnósticos e históricos clínicos circulam atualmente por um ecossistema formado por hospitais, clínicas, laboratórios, operadoras, fornecedores de tecnologia, plataformas de telemedicina, sistemas governamentais e dispositivos médicos.

No Sistema Único de Saúde, essa digitalização atingiu outra escala. Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde anunciou o início da jornada para a chamada Nuvem Soberana do SUS. O primeiro movimento envolve a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), infraestrutura que já reúne mais de 5 bilhões de registros. A estratégia prevê armazenamento e processamento de dados públicos de saúde em território nacional, em parceria com o Serpro.

O ataque que atinge dados pode atingir também a assistência

Em julho de 2026, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou processo sancionador contra o Instituto Saúde e Cidadania (Isac), organização social responsável pela gestão de unidades públicas de saúde em diferentes estados brasileiros. O processo decorre de um incidente ocorrido em 2025 e envolve possíveis falhas relacionadas à proteção de dados pessoais sensíveis de aproximadamente 500 mil pacientes, além da comunicação às vítimas e das medidas de segurança adotadas.

Outro episódio mostra uma dimensão diferente do problema. Em junho de 2026, a Fundação de Saúde Itaiguapy, responsável pelo Hospital Itamed, em Foz do Iguaçu, informou sobre um ransomware ocorrido no ambiente de um prestador de serviços de diagnóstico por imagem. Como resposta, integrações sistêmicas foram suspensas e fluxos de contingência foram acionados para manter a assistência aos pacientes.

Em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Saúde informou ter identificado, em março de 2026, um incidente cibernético em sua infraestrutura. Segundo o órgão, mecanismos de contingência, redundância e recuperação permitiram restaurar as informações afetadas e preservar a continuidade dos serviços.

Na saúde, disponibilidade também é segurança do paciente

Tradicionalmente, Segurança da Informação procura preservar confidencialidade, integridade e disponibilidade da informação. No ambiente hospitalar, porém, a disponibilidade assume significado particularmente crítico. Se uma unidade de emergência perde temporariamente acesso a históricos, alergias, prescrições, resultados laboratoriais ou exames de imagem, a indisponibilidade já pode representar um incidente operacional grave, mesmo que nenhum registro tenha sido publicado na Internet.

A própria ANPD reconhece essa possibilidade em suas orientações sobre comunicação de incidentes, ao apresentar como exemplo uma rede hospitalar afetada por sequestro de dados cuja indisponibilidade prolongada impeça o acesso aos dados dos pacientes ou a realização de procedimentos médicos, podendo gerar riscos ou danos à saúde.

Ransomware encontra um ambiente particularmente atraente

Dados compilados pela Comparitech registraram 445 ataques de ransomware contra hospitais, clínicas e outros prestadores diretos de assistência em 2025, além de outros 191 envolvendo empresas da cadeia de saúde, como fabricantes, fornecedores de tecnologia e empresas relacionadas ao processamento de informações médicas.

Instituições de saúde combinam informações pessoais extremamente sensíveis com baixa tolerância à indisponibilidade. Um hospital não pode simplesmente desligar suas operações durante vários dias enquanto servidores são reconstruídos. Criminosos procuram explorar justamente essa assimetria.

Além da criptografia dos sistemas, grupos de ransomware utilizam exfiltração e extorsão: copiam informações antes de bloquear o ambiente e ameaçam publicar os dados caso a vítima não pague. Quando o material envolve diagnósticos, exames, imagens, medicamentos, informações de crianças ou condições clínicas, o potencial de dano aos titulares aumenta significativamente.

O prontuário é apenas uma parte da superfície de ataque

Um dos erros mais perigosos seria imaginar a cibersegurança hospitalar como proteção apenas do banco de dados de pacientes. Um hospital moderno se aproxima de um ecossistema tecnológico. Prontuários eletrônicos conversam com laboratórios, sistemas de imagens utilizam PACS e modalidades diagnósticas, aplicações administrativas trocam informações com operadoras, sistemas de identidade controlam profissionais e APIs transportam informações entre diferentes plataformas.

Ao mesmo tempo, equipamentos médicos estão cada vez mais conectados às redes. Estações de diagnóstico, servidores de imagens, dispositivos de monitoramento e outros equipamentos podem incorporar sistemas operacionais e componentes de software que também possuem vulnerabilidades.

Em 2025, por exemplo, a Anvisa publicou alerta relacionado a uma vulnerabilidade em produtos AW Server da GE HealthCare. Segundo o alerta, determinadas condições poderiam permitir comprometimento da confidencialidade, integridade e disponibilidade dos dados do paciente, incluindo a possibilidade de alterações em identificadores, imagens, resultados de procedimentos e conclusões de relatórios. O exemplo demonstra por que a integridade merece atenção equivalente à confidencialidade: um dado médico vazado é um incidente de privacidade; um dado médico alterado silenciosamente pode se transformar em um problema clínico.

O risco escondido na cadeia de fornecedores

Laboratórios, empresas de diagnóstico, fornecedores de prontuário eletrônico, plataformas SaaS, empresas de faturamento, serviços de nuvem, consultorias, empresas de manutenção e inúmeros outros parceiros podem possuir algum nível de integração ou acesso ao ambiente. Isso transforma terceiros em parte da superfície de ataque.

Em 2025, o grupo KillSec reivindicou um ataque contra a brasileira MedicSolution, fornecedora de software para o setor. Segundo investigação citada pela Dark Reading, mais de 34 GB de informações teriam sido obtidos, envolvendo mais de 94 mil arquivos, incluindo resultados laboratoriais, radiografias, imagens de pacientes e registros relacionados a menores. A investigação relacionou a exposição a buckets AWS S3 inseguros.

Por isso, gestão de terceiros não pode terminar na assinatura de cláusulas contratuais de confidencialidade. É necessário conhecer acessos, integrações, APIs, credenciais, fluxos de dados, suboperadores, ambientes cloud e capacidade de resposta a incidentes dos fornecedores críticos.

Identidade tornou-se um novo perímetro hospitalar

Médicos, enfermeiros, técnicos, administrativos, prestadores de serviço, equipes terceirizadas e fornecedores podem necessitar acesso a diferentes sistemas. Ambientes dessa natureza frequentemente acumulam contas antigas, privilégios excessivos e credenciais compartilhadas. Uma senha comprometida pode permitir que o atacante entre pela mesma porta utilizada por um profissional legítimo.

Por isso, autenticação multifator deve ser combinada com gestão do ciclo de vida das identidades, princípio do menor privilégio, revisão periódica dos acessos e mecanismos capazes de detectar comportamento anômalo. A segmentação também assume importância especial: o comprometimento de uma estação administrativa não deveria proporcionar caminho livre até servidores clínicos, sistemas de imagem ou redes utilizadas por equipamentos médicos.

Cloud amplia possibilidades — e exige governança

A expansão dos serviços em nuvem precisa ser analisada além da discussão simplista sobre se cloud é segura ou insegura. O risco está, em grande parte, na arquitetura e na configuração. Buckets expostos, identidades excessivamente privilegiadas, chaves armazenadas de maneira inadequada, APIs sem controles suficientes, tokens de longa duração e ausência de monitoramento podem transformar um ambiente tecnologicamente robusto em uma infraestrutura vulnerável.

No SUS, essa discussão ganha dimensão estratégica com a migração da RNDS para a infraestrutura soberana anunciada pelo Ministério da Saúde. Além da localização física dos dados, o projeto deverá conviver com desafios relacionados a identidade, criptografia, segregação, gestão de chaves, rastreabilidade, monitoramento, disponibilidade e recuperação. Soberania de dados e segurança são conceitos relacionados, mas não equivalentes.

LGPD transforma cibersegurança em questão de governança

Dados referentes à saúde são classificados pela LGPD como dados pessoais sensíveis. Isso significa que um incidente não permanece restrito à equipe de tecnologia. A organização precisa avaliar impactos aos titulares, obrigações regulatórias, comunicação, evidências, responsabilidades entre controlador e operador e medidas de mitigação.

O Ministério da Saúde registra que incidentes podem comprometer confidencialidade, integridade, disponibilidade ou autenticidade dos dados pessoais. Nos casos sujeitos à comunicação, o controlador deve comunicar à ANPD os incidentes capazes de acarretar risco ou dano relevante aos titulares, observando o prazo regulamentar aplicável.

A defesa precisa começar antes do ransomware

Proteger uma instituição de saúde exige abandonar a lógica de que cibersegurança significa apenas instalar antivírus, firewall e ferramentas de monitoramento. A primeira pergunta deveria ser quais processos não podem parar. Pronto atendimento, laboratório, diagnóstico por imagem, farmácia, internação, prescrição e acesso a informações clínicas precisam ser associados aos sistemas, identidades, fornecedores e componentes tecnológicos dos quais dependem.

A partir desse mapeamento, torna-se possível estabelecer uma arquitetura baseada em risco. Segmentação de rede reduz a movimentação lateral. MFA dificulta o abuso de credenciais. EDR e XDR ampliam capacidade de detecção. Gestão de vulnerabilidades reduz oportunidades conhecidas de exploração. PAM protege contas privilegiadas. Backups isolados e testados aumentam a capacidade de recuperação.

Mas nenhuma dessas tecnologias funciona adequadamente sem governança. Hospitais precisam testar planos de resposta a incidentes e, principalmente, procedimentos de continuidade clínica. A pergunta crítica não é apenas “como restaurar o servidor?”, mas também “como o hospital continuará atendendo enquanto o servidor não estiver disponível?”.

Zero Trust encontra um caso de uso natural na saúde

A arquitetura Zero Trust possui forte aderência ao setor porque parte do princípio de que confiança não deve ser concedida simplesmente pela localização de um usuário ou dispositivo dentro da rede. Cada acesso precisa ser avaliado considerando identidade, dispositivo, contexto, privilégio e recurso solicitado.

Em um ambiente no qual funcionários, terceiros, equipamentos médicos, aplicações SaaS, APIs e sistemas legados coexistem, assumir confiança implícita cria caminhos para movimentação lateral. A adoção de Zero Trust não significa adquirir um único produto. Trata-se de reorganizar identidade, segmentação, autenticação, autorização e monitoramento para reduzir a capacidade de um comprometimento inicial se transformar em comprometimento sistêmico.

Segurança da saúde precisa chegar à alta administração

Cibersegurança hospitalar não pode continuar sendo tratada exclusivamente como responsabilidade do departamento de TI. Quando uma ameaça digital possui capacidade de interromper exames, atrasar procedimentos, indisponibilizar prontuários ou afetar informações utilizadas na decisão clínica, o risco passa a ser institucional.

Diretores clínicos, administração, jurídico, privacidade, riscos, compliance, engenharia clínica, compras e tecnologia precisam participar do mesmo modelo de governança. O conselho e a alta administração deveriam conhecer pelo menos quatro respostas: quais serviços clínicos são mais críticos; quanto tempo eles podem permanecer indisponíveis; quais terceiros podem interrompê-los; e quanto tempo a organização realmente leva para recuperá-los após um ataque.

O próximo ataque pode não começar no hospital

A digitalização da saúde brasileira continuará avançando. Telemedicina, inteligência artificial, interoperabilidade, dispositivos conectados, aplicações móveis, cloud e grandes plataformas nacionais de dados oferecem oportunidades enormes para melhorar a assistência. Essa evolução, porém, torna segurança uma condição para a própria transformação digital.

O próximo grande incidente contra uma organização de saúde brasileira pode começar por um e-mail de phishing, uma credencial roubada, uma VPN vulnerável, um fornecedor comprometido, uma API mal protegida, um bucket cloud configurado incorretamente ou um equipamento médico sem atualização. O ponto de entrada pode parecer pequeno. O impacto não.

Na saúde, proteger dados continua sendo fundamental. Mas a maturidade cibernética precisa avançar para um conceito maior: proteger a informação, a operação e a continuidade da assistência ao paciente ao mesmo tempo. Quando tecnologia passa a participar diretamente do cuidado, cibersegurança deixa de ser apenas proteção digital. Passa a fazer parte da segurança do paciente.

Referências

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